Sempre fui apaixonado por música e animação. Esta 'peça' de Norman McLaren, presente no longa 32 curtas sobre Glenn Gould, de François Girard soma as duas coisas de maneira maravilhosa. McLaren ficou conhecido por trabalhar diretamente sobre a película de cinema, sem usar câmeras. Vale a pena assistir ao filme inteiro de Girard e também buscar outras obras de McLaren. Elas são uma 'viagem', bro!
sábado, 21 de agosto de 2010
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Mais vale um sorvete na mão
"Deixa eu ir junto", gemia o menino.
"Você não pode ir, a gente logo volta, fica com seu irmão".
"Não, me leva", manhava ele.
O pai começou a calcular o tempo que ia demorar para convencer o menino. Se tivesse que endurecer ia ser pior, pois aí ia ter que dar sermão, deixar de castigo, e iam perder a hora do mesmo jeito.
"Olha, você pode comprar um sorvete. E logo vai começar a Disneylândia! Se você for, vai perder!"
Parou de miar por dois segundos. Disneylândia era bacana, tinha o Pato Donald.
"Dá dois sorvetes, então?" gemeu.
"Vamos, então", disse a mãe, prática. "Você pega os sorvetes e volta para casa."
A sorveteria, recém-inaugurada, funcionava em uma saleta a dez passos de casa, mas ele não podia ir lá sozinho. Precisava usar as mãos para subir os dois degraus desmesuradamente altos.
"Um de morango e um de chocolate", sentenciou. Na saída, já não tinha olhos para mais nada. Desceu os dois degraus pulando com os pés separados, para não perder o equilíbrio, e foi andando para casa, lambendo ora a casquinha da esquerda, ora a da direita, sob o olhar divertido dos pais, que se apressavam para seu compromisso.
"Oba, me dá um!" disse o irmão, assim que o viu.
"É meu, a mãe comprou pra mim! E é pra ligar na Disneylândia!"
"Ah, só uma lambidinha, depois eu devolvo!"
"Tá, mas liga a Disneylândia!"
Sentou na sofá, absorto com o Prof. Ludovico, que tinha um sotaque engraçado e falava coisas que ele não entendia.
"Vamos trocar, agora? Deixa eu experimentar esse."
Não havia se dado conta que o irmão tinha dez anos a mais de boca, e o sorvete que voltou era quase só casquinha.
"Você comeu tudo!" reclamou, mas não queria perder o desenho para brigar.
Mas o prof. Ludovico já se despedia e a música de encerramento começava. Olhou para o lado e já não viu o irmão.
Sentiu-se sozinho, injustiçado, mas não havia ninguém para quem chorar. Desligou a televisão e foi folhear seus livros.
"Você não pode ir, a gente logo volta, fica com seu irmão".
"Não, me leva", manhava ele.
O pai começou a calcular o tempo que ia demorar para convencer o menino. Se tivesse que endurecer ia ser pior, pois aí ia ter que dar sermão, deixar de castigo, e iam perder a hora do mesmo jeito.
"Olha, você pode comprar um sorvete. E logo vai começar a Disneylândia! Se você for, vai perder!"
Parou de miar por dois segundos. Disneylândia era bacana, tinha o Pato Donald.
"Dá dois sorvetes, então?" gemeu.
"Vamos, então", disse a mãe, prática. "Você pega os sorvetes e volta para casa."
A sorveteria, recém-inaugurada, funcionava em uma saleta a dez passos de casa, mas ele não podia ir lá sozinho. Precisava usar as mãos para subir os dois degraus desmesuradamente altos.
"Um de morango e um de chocolate", sentenciou. Na saída, já não tinha olhos para mais nada. Desceu os dois degraus pulando com os pés separados, para não perder o equilíbrio, e foi andando para casa, lambendo ora a casquinha da esquerda, ora a da direita, sob o olhar divertido dos pais, que se apressavam para seu compromisso.
"Oba, me dá um!" disse o irmão, assim que o viu.
"É meu, a mãe comprou pra mim! E é pra ligar na Disneylândia!"
"Ah, só uma lambidinha, depois eu devolvo!"
"Tá, mas liga a Disneylândia!"
Sentou na sofá, absorto com o Prof. Ludovico, que tinha um sotaque engraçado e falava coisas que ele não entendia.
"Vamos trocar, agora? Deixa eu experimentar esse."
Não havia se dado conta que o irmão tinha dez anos a mais de boca, e o sorvete que voltou era quase só casquinha.
"Você comeu tudo!" reclamou, mas não queria perder o desenho para brigar.
Mas o prof. Ludovico já se despedia e a música de encerramento começava. Olhou para o lado e já não viu o irmão.
Sentiu-se sozinho, injustiçado, mas não havia ninguém para quem chorar. Desligou a televisão e foi folhear seus livros.
Presente imerecido
J.M.Coetzee diz em seu Diário de um ano ruim que uma prova de que o mundo na verdade é um bom lugar, e que talvez até exista um Deus misericordioso que olhe por nós, é que cada pessoa que nasce recebe de herança, sem que tenha feito nada para merecer isso, a música de Johann Sebastian Bach.
Às vezes penso que se por alguma catástrofe todas as músicas e partituras e gravações fossem perdidas, uma irmandade de músicos se reuniria para tentar recriar, conforme indicações dos que as conheciam, pelo menos algumas obras de Bach, para que as gerações futuras tivessem alguma esperança. Sim, como em Fahrenheit 451, mas pense bem: pode-se viver sem Ulisses ou Anna Karenina, mas não é justo se viver sem Bach!
Clique na "animação musical" abaixo e faça sua vida melhor!
Às vezes penso que se por alguma catástrofe todas as músicas e partituras e gravações fossem perdidas, uma irmandade de músicos se reuniria para tentar recriar, conforme indicações dos que as conheciam, pelo menos algumas obras de Bach, para que as gerações futuras tivessem alguma esperança. Sim, como em Fahrenheit 451, mas pense bem: pode-se viver sem Ulisses ou Anna Karenina, mas não é justo se viver sem Bach!
Clique na "animação musical" abaixo e faça sua vida melhor!
Causo causal
Seu Latércio levantou devagar do degrau onde tomava a fresca, para atender o telefone que gritava na sala. "Já vai, já, vai", resmungou para o aparelho que não o ouvia.
"Eu!", gritou no bocal. A voz do outro lado, ainda se acostumando às manias do caseiro, soou irritada.
"Oi, Latércio, tá tudo bem por aí?"
"Fora a falta d'água, tá tudo bem."
"Ué, faltando água por quê? O poço secou?"
"Não, o poço tá cheio, só não tem como usar a bomba."
"Quebrou a bomba?"
"Quebrou não, não tem é luz pra ligar."
"Acabou a força? Tem que ligar para a Companhia e avisar."
"Avisei, mas sem poste não dá pra ligar não."
"Ué, e o que aconteceu com o poste?"
"Queimou, com o fogo que pegou no mangueiro."
"Que é isso, homem? Como pode ter pego fogo no mangueiro?"
"Ué, pegou da casa."
"Minha casa pegou fogo, Latércio? E é assim que você me diz? E como é que começou o fogo?"
"Diz que foi da vela do velório."
"Como assim? Velório de quem?"
"Da sua senhora, Deus a tenha."
....
"Mas fora isso está tudo bem!"
"Eu!", gritou no bocal. A voz do outro lado, ainda se acostumando às manias do caseiro, soou irritada.
"Oi, Latércio, tá tudo bem por aí?"
"Fora a falta d'água, tá tudo bem."
"Ué, faltando água por quê? O poço secou?"
"Não, o poço tá cheio, só não tem como usar a bomba."
"Quebrou a bomba?"
"Quebrou não, não tem é luz pra ligar."
"Acabou a força? Tem que ligar para a Companhia e avisar."
"Avisei, mas sem poste não dá pra ligar não."
"Ué, e o que aconteceu com o poste?"
"Queimou, com o fogo que pegou no mangueiro."
"Que é isso, homem? Como pode ter pego fogo no mangueiro?"
"Ué, pegou da casa."
"Minha casa pegou fogo, Latércio? E é assim que você me diz? E como é que começou o fogo?"
"Diz que foi da vela do velório."
"Como assim? Velório de quem?"
"Da sua senhora, Deus a tenha."
....
"Mas fora isso está tudo bem!"
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Palimpsesto
Em vão descamo o pergaminho quase roto
e cubro cada milímetro com novas histórias,
pinceladas a óleo sobre uma aquarela.
O passado é como a umidade sob a escada,
penetra as camadas e vem tingir de memória
minha realidade de papel crepom.
e cubro cada milímetro com novas histórias,
pinceladas a óleo sobre uma aquarela.
O passado é como a umidade sob a escada,
penetra as camadas e vem tingir de memória
minha realidade de papel crepom.
terça-feira, 27 de julho de 2010
'Fíumi di chorá'
Era assim que uma locadora perto de casa anunciava seus dramas, ao passo que as comédias eram 'Fíumi dirri'. Claro que isso foi há muitos anos, quando locadoras eram lugares que se prestavam a alguma criatividade.
O fato é que para mim comédias sempre renderam poucas risadas e os dramas típicos, poucas lágrimas. Mas claro, as comédias querem tirar risos de palavrões e vulgaridades, que deixam hilários adolescentes e reprimidos em geral, e os dramas apelam às emoções mais superficiais ou mais fáceis de extrair. Não reclamo. Só o cinéfilo mais empedernido pode passar incólume vendo pela primeira vez A vida é bela, de Benigni, por exemplo. A emoção é calculada, mas está aí a arte do cineasta: os botões certos foram apertados, a catarse é feita.
Mas há filmes que só cada um de nós sabe por que nos afeta. A arte do autor é responsável por uma parte da mágica (e não por acaso Orson Welles posava de prestidigitador), mas a outra parte está em cada um de nós, é a arte lançada ao mundo para encontrar seu público.
Minha mulher vive mexendo comigo porque choro em filmes, e por isso há filmes que evito assistir com ela. Entre eles, os quatro primeiros do ranking são:
4. Mulan. É isso mesmo, o filme da Disney. Criativo, boas músicas, pouco mais que isso, mas duas cenas me matam: quando o pai descobre que Mulan foi à guerra no lugar dele e cai na chuva, impotente, e quando ela volta lhe trazendo honrarias que ele descarta para abraçar a filha que imaginava perdida.
3. O céu mandou alguém. Um legítimo John Ford, estrelado por John Wayne, em que um trio de ladrões (os três padrinhos do título original) sofre o inferno no deserto para salvar um bebê recém-nascido.
2. A felicidade não se compra. A fábula já não tão moderna de Frank Capra sobre George Bailey, o cara legal que se acha um fracassado. Não bastasse ele não ouvir do mesmo ouvido que eu (mas por um motivo mais heróico), George é o sujeito que fica feliz por ter sua família de volta, mesmo que tenha de ir para a cadeia.
1. A cor púrpura. Sempre que começo a assisti-lo me irrito com os excessos de Spielberg, o crescendo de violinos logo no começo, as escolhas de imagens puramente estéticas, a sequência ininterrupta de desgraças, mas com 15 minutos de filme é impossível não entrar no mundo que ele traduziu do livro de Alice Walker. Você pode perdoar os cortes na história e os gimmicks quando ele lhe dá a volta da Sophie à vida quando Ms. Celie anuncia que vai embora, o arrepio em todos os pelos do corpo quando Shug Avery pára de cantar um blues no Harpo's e irrompe na igreja de seu pai cantando um spiritual. OK, o homem não economizou, todas as músicas são do Quincy Jones, mas a mágica é do Steven.
Os seus 'fíumis di chorá' podem ser outros, com outros temas, mas os meus são esses. Não nego, as relações são óbvias, a família que tantas vezes deixamos de lado por escolhas mais 'urgentes' ou 'práticas', mas que realmente falam ao que somos em nossa essência. Família para curtir, para enjoar, para sentir falta.
O fato é que para mim comédias sempre renderam poucas risadas e os dramas típicos, poucas lágrimas. Mas claro, as comédias querem tirar risos de palavrões e vulgaridades, que deixam hilários adolescentes e reprimidos em geral, e os dramas apelam às emoções mais superficiais ou mais fáceis de extrair. Não reclamo. Só o cinéfilo mais empedernido pode passar incólume vendo pela primeira vez A vida é bela, de Benigni, por exemplo. A emoção é calculada, mas está aí a arte do cineasta: os botões certos foram apertados, a catarse é feita.
Mas há filmes que só cada um de nós sabe por que nos afeta. A arte do autor é responsável por uma parte da mágica (e não por acaso Orson Welles posava de prestidigitador), mas a outra parte está em cada um de nós, é a arte lançada ao mundo para encontrar seu público.
Minha mulher vive mexendo comigo porque choro em filmes, e por isso há filmes que evito assistir com ela. Entre eles, os quatro primeiros do ranking são:
4. Mulan. É isso mesmo, o filme da Disney. Criativo, boas músicas, pouco mais que isso, mas duas cenas me matam: quando o pai descobre que Mulan foi à guerra no lugar dele e cai na chuva, impotente, e quando ela volta lhe trazendo honrarias que ele descarta para abraçar a filha que imaginava perdida.
3. O céu mandou alguém. Um legítimo John Ford, estrelado por John Wayne, em que um trio de ladrões (os três padrinhos do título original) sofre o inferno no deserto para salvar um bebê recém-nascido.
2. A felicidade não se compra. A fábula já não tão moderna de Frank Capra sobre George Bailey, o cara legal que se acha um fracassado. Não bastasse ele não ouvir do mesmo ouvido que eu (mas por um motivo mais heróico), George é o sujeito que fica feliz por ter sua família de volta, mesmo que tenha de ir para a cadeia.
1. A cor púrpura. Sempre que começo a assisti-lo me irrito com os excessos de Spielberg, o crescendo de violinos logo no começo, as escolhas de imagens puramente estéticas, a sequência ininterrupta de desgraças, mas com 15 minutos de filme é impossível não entrar no mundo que ele traduziu do livro de Alice Walker. Você pode perdoar os cortes na história e os gimmicks quando ele lhe dá a volta da Sophie à vida quando Ms. Celie anuncia que vai embora, o arrepio em todos os pelos do corpo quando Shug Avery pára de cantar um blues no Harpo's e irrompe na igreja de seu pai cantando um spiritual. OK, o homem não economizou, todas as músicas são do Quincy Jones, mas a mágica é do Steven.
Os seus 'fíumis di chorá' podem ser outros, com outros temas, mas os meus são esses. Não nego, as relações são óbvias, a família que tantas vezes deixamos de lado por escolhas mais 'urgentes' ou 'práticas', mas que realmente falam ao que somos em nossa essência. Família para curtir, para enjoar, para sentir falta.
segunda-feira, 26 de julho de 2010
Histórias da Vó Anna
'Descalço' que era, não entendia metade das histórias, que tinham sabor de molecagem. Nascida aqui mas espanhola de tudo, Vó Anna não era de medir palavras. Sempre fará parte do meu imaginário a história do "Largo maio". Era como uma narrativa de Pedro Malasartes, uma arrevesada jornada do herói. Nem vou tentar contar como ela, mas depois de 30 anos a versão em minha cabeça ficou mais ou menos assim:
Em uma pequena fazenda na Espanha, o marido tem de viajar para fazer negócios. Sabendo que iria ficar fora muito tempo e que maio seria um longo [largo, em espanhol] mês de seca, armazena em um quarto os mantimentos que seriam necessários para atravessá-lo. "Guarde bem esses mantimentos", disse à esposa, "são para o largo maio". Ela ficou sem entender quem era esse tal de Largo Maio e por que precisava de tanta coisa, mas se despediu do marido e continuou cuidando da vida. Passado algum tempo, surgiu um homem na fazenda pedindo comida. isso não era comum, então ela perguntou: "Você que é o Largo Maio"? O homem estranhou, mas preferiu perguntar por que. "É que meu marido mandou guardar toda aquela comida", disse ela, indicando o cômodo abarrotado, "para o Largo Maio".
O viajante, que não ia desprezar um golpe de sorte, respondeu que claro que era, e carregou tudo com ele.
Lá pelo meio de maio o Marido voltou e encontrou a mulher meio morta de fome. Quando soube o que aconteceu, gritou de raiva: "Não é possível alguém ser tão burro!"
Pegou suas coisas e disse "Vou me embora daqui, só volto se encontrar alguém mais burro que você!"
Ele sai, mas ela quer ir com ele. Mais calmo, ele se compadece. "Pode vir, mas traz a porta", querendo dizer que ela devia fechar a porta da casa. Já havia caminhado um bom quarto de hora quando olhou para trás e viu que a mulher vinha carregando a porta nas costas.
Esse é o começo de uma infinidade de aventuras, nas quais foram encontrando estupidez em cima de estupidez. A hora de dormir sempre chegava antes do fim da história, mas acho que no final ele voltaria para casa com a mulher.
Em uma pequena fazenda na Espanha, o marido tem de viajar para fazer negócios. Sabendo que iria ficar fora muito tempo e que maio seria um longo [largo, em espanhol] mês de seca, armazena em um quarto os mantimentos que seriam necessários para atravessá-lo. "Guarde bem esses mantimentos", disse à esposa, "são para o largo maio". Ela ficou sem entender quem era esse tal de Largo Maio e por que precisava de tanta coisa, mas se despediu do marido e continuou cuidando da vida. Passado algum tempo, surgiu um homem na fazenda pedindo comida. isso não era comum, então ela perguntou: "Você que é o Largo Maio"? O homem estranhou, mas preferiu perguntar por que. "É que meu marido mandou guardar toda aquela comida", disse ela, indicando o cômodo abarrotado, "para o Largo Maio".
O viajante, que não ia desprezar um golpe de sorte, respondeu que claro que era, e carregou tudo com ele.
Lá pelo meio de maio o Marido voltou e encontrou a mulher meio morta de fome. Quando soube o que aconteceu, gritou de raiva: "Não é possível alguém ser tão burro!"
Pegou suas coisas e disse "Vou me embora daqui, só volto se encontrar alguém mais burro que você!"
Ele sai, mas ela quer ir com ele. Mais calmo, ele se compadece. "Pode vir, mas traz a porta", querendo dizer que ela devia fechar a porta da casa. Já havia caminhado um bom quarto de hora quando olhou para trás e viu que a mulher vinha carregando a porta nas costas.
Esse é o começo de uma infinidade de aventuras, nas quais foram encontrando estupidez em cima de estupidez. A hora de dormir sempre chegava antes do fim da história, mas acho que no final ele voltaria para casa com a mulher.
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