Em vão descamo o pergaminho quase roto
e cubro cada milímetro com novas histórias,
pinceladas a óleo sobre uma aquarela.
O passado é como a umidade sob a escada,
penetra as camadas e vem tingir de memória
minha realidade de papel crepom.
Mostrando postagens com marcador Nostalgia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Nostalgia. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
sábado, 20 de março de 2010
Militares na 23 de Maio
Certa vez, a caminho do trabalho, avistei soldados postados com seus rifles por todas as principais vias públicas. A sensação foi no mínimo curiosa. Embora soubesse se tratar de segurança adicional devido à Unctad, não gostei de ver aqueles garotos semi-imberbes fortemente armados, à espera de um inimigo indefinido. Não vivi realmente o regime militar, embora tenha nascido no ano do AI-5. Quando comecei a ter um pouco de consciência das coisas, já era a campanha das diretas, era a Ditadura cedendo lugar a seus filhotes. Hoje, seus opositores e vítimas estão no poder, celebrando a amizade com algumas das piores ditaduras do mundo.
Sempre vale lembrar a única revolução socialista pacífica que deu certo, a dos Cravos em Portugal. O filme Capitães de abril, da atriz tornada diretora Maria de Medeiros, mostra o dia sobre o qual ninguém de minha geração aprendeu na escola e que Chico Buarque cantava em "Tanto Mar": "Foi bonita a festa, pá./ Fiquei contente/ e inda guardo, renitente/ um velho cravo para mim". O exército não fez o que mais sabe, e sem um único tiro fez sua festa. Mas murchou e a semente esquecida hoje é soja transgênica. Apanhada entre a ânsia de lutar contra o imperialismo ianque e a necessidade de adotar seus métodos, sofrendo sob as sandálias da bajulada Gigante Vermelha, a esquerda pós-Lula tenta recolher o que restou das utopias socialistas que o selvagem Che vislumbrou sobre sua motocicleta.
Sempre vale lembrar a única revolução socialista pacífica que deu certo, a dos Cravos em Portugal. O filme Capitães de abril, da atriz tornada diretora Maria de Medeiros, mostra o dia sobre o qual ninguém de minha geração aprendeu na escola e que Chico Buarque cantava em "Tanto Mar": "Foi bonita a festa, pá./ Fiquei contente/ e inda guardo, renitente/ um velho cravo para mim". O exército não fez o que mais sabe, e sem um único tiro fez sua festa. Mas murchou e a semente esquecida hoje é soja transgênica. Apanhada entre a ânsia de lutar contra o imperialismo ianque e a necessidade de adotar seus métodos, sofrendo sob as sandálias da bajulada Gigante Vermelha, a esquerda pós-Lula tenta recolher o que restou das utopias socialistas que o selvagem Che vislumbrou sobre sua motocicleta.
quinta-feira, 4 de março de 2010
São Carlos
Ele ficava sempre na esquina da Catedral, um breve oásis antes da ladeira mais íngreme de meu caminho pela avenida principal de São Carlos. Sempre simpático mas nunca sorrindo, vendia amendoim ou coco caramelado cortado em pequenos cubinhos, que embalava conscienciosamente em saquinhos plásticos longos e delgados. Eu nem sempre tinha os trocados necessários, mas sempre reduzia o passo, desejoso... O cheiro que me despertou essas lembranças vem de uma esquina apinhada, onde a fuligem dá aos doces expostos o sabor peculiar da comida de rua em São Paulo. "Quem vem de um outro sonho feliz de cidade" aprende a amar essa balbúrdia de buzinas e possibilidades. Na cidade onde cresci, carregando meu violão avenida acima, já pensava em vir para cá, e não via grande ameaça nesta terra que meus irmãos já haviam desbravado. Com a inocência arrogante de meus 18 anos recém-completos, achava que a cidade seria uma passagem, uma etapa a cumprir entre o estudante e o profissional; ela não reclamou, simplesmente me acolheu e começou seu insidioso trabalho de me transformar em alguém na vida. Caminhando hoje pelas ruas de São Carlos, paro em uma praça muito querida, vigiada pela fachada austera de meu antigo grupo escolar, e me divirto vendo o tráfego em mão única e os parquímetros sofisticados. Orgulho-me dessa recém-assumida vocação tecnológica, celeiro de empresas e talentos, mas sei que essa cidade que não é mais a minha. Minha cidade são as lembranças tingidas de azul de tardes preguiçosas, de jaboticabeira e gibis, de tarefas de gente grande e mimo de criança. Mas a cada camada de lembranças relevantes cuidadosamente escolhidas sobrepõem-se novas escolhas, outros lugares, outras experiências, fundidos em uma perspectiva toda minha. Apegando-me ao que há de melhor em cada cidade, escolho ser um estrangeiro nas duas; escolhendo o que cada memória me traz de melhor, abro minha mente para o mundo.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Leituras de infância
Filtrados pelas lentes da nostalgia, os fatos do passado muitas vezes se distorcem até formar uma realidade alternativa. O mesmo acontece com as memórias do que lemos, ouvimos ou assistimos. Não raro nos decepcionamos ao rever um filme de que tanto gostávamos, uma música que repetíamos sem parar ou um livro que nos absorveu irremediavelmente. Em outros casos, apreciamos com uma nova profundidade a mesma obra, aumentando ainda mais nossa admiração. Mas há casos em que somos incapazes de analisar racionalmente, pelas associações com o passado e, porque não dizer, por amor. Se alguém me perguntar se Rick Wakeman era um bom compositor, não saberei dizer, pois não quero aplicar a ele meus conhecimentos musicais; meu amor por sua música ficou tão associado a momentos de minha infância que ele não pode ser questionado nem por mim mesmo. Outra obra que surte esse efeito em mim são os livros de Edgar Rice Burroughs, especialmente os de Tarzan. Comecei a lê-los aos sete anos, e antes dos 12 já havia relido meus favoritos pelo menos cinco vezes. Como ficção popular, os livros de Burroughs sempre estiveram acima da média, nas nunca almejaram ser mais que isso. A maioria dos personagens coadjuvantes é unidimensional, e a lógica dos acontecimentos nem sempre parece natural, ficando por vezes visíveis os fios do autor. Mas esses clássicos juvenis exsudam um vigor narrativo e uma criatividade que superam o kitsch de alguns de seus parágrafos. Mesclando o esforço para conferir realismo a sua descrição da selva e de seus habitantes a concepções fantasiosas sobre a inteligência dos animais, Burroughs cria um universo fantástico que não deve nada aos dos atuais bruxos e vampiros, tão em voga. Sendo o autor fruto de sua época, alguns preconceitos se filtram em seus comentários, mas uma crítica constante à arrogância das classes dominantes e personagens fortes de todas as raças e credos evidencia sua preocupação democrática subjacente. Seus personagens demonstram uma honra cavalheiresca por vezes antiquada, mas na selva, onde a vida não vale mais que uma refeição, a fina camada de verniz dá lugar à lei do mais forte. Em meio à diversão das inúmeras reviravoltas e surpresas, um senso de ética e responsabilidade é estabelecido, mas não como norma, e sim como a escolha de quem tem consciência de seu poder, mas escolhe ser humilde e gentil. Não é pouca coisa...
Assinar:
Postagens (Atom)