Aceitou a ajuda do carregador para levar as malas porque a escada do hotel era íngreme e as malas estavam pesadas, mas a lerdeza do homem a exasperava.
"O parque fecha às cinco", disse ao companheiro, que subiu com sua própria bagagem.
Estavam cansados da viagem. Dez horas até São Paulo, espera no aeroporto, mais duas horas até Foz, espera pelas malas, táxi até o hotel antiquado. Esperava mais de uma cidade turística, algo como os hotéis do Rio, mas a cidade parecia ter parado em algum momento da década de 80.
"To the falls", soprou ao taxista, que entendeu a mensagem, costurando pela rodovia das Cataratas e deixando-os na entrada do parque. Não percebeu que pagava mais por ser estrangeira, mas não se importaria. Seus conhecimentos de espanhol não ajudavam muito, mas era fácil entender para onde ir e o que fazer; era só seguir os outros turistas. No caminho, foi se lembrando de sua visita a Niagara Falls, de como é impressionante aquela imensidão de água rugindo e fluindo, inesgotável, lembra da sensação de abismo, de vertigem que a queda lhe deu. Não podia vir a Foz e perder a oportunidade de comparar a experiência. Não trouxe câmera; confia em sua memória.
Ela se apressa pela trilha bem-calçada que serpeia por entre as árvores, mas um bando de quatis, atravessando o caminho, a paralisa. Os outros turistas se deleitam com a visão, mas ela conhece bem os perigos de perturbar animais selvagens. Por sorte, os animais logo desaparecem e ela pode voltar a perseguir o rugido. As cataratas logo se exibem para ela, em dezenas de quedas do outro lado do cânion. Muito bonita, pensa, mas não é tão impressionante. Prossegue no caminho, para chegar mais perto. À medida que caminha, outras visões das cataratas lhe sugerem que ainda não viu nada. Sem perceber, caminha cada vez mais rápido pela trilha, absorvendo a paisagem cada vez mais complexa que se lhe oferece. Quando finalmente chega ao observatório, já não acredita no que vê. Ao seu redor, centenas de cachoeiras se derramam infinitamente em diversos níveis, uma catedral aquática esculpida pelo acaso. Sem se importar com a chuva que as quedas provocam, embrenha-se pelas passarelas e não consegue conter o choro ao se ver no meio de tudo aquilo. Sente-se tão pequena, tão pequena, mas ao mesmo tempo cheia de vida, possuída que está por uma natureza tonitruante e generosa.
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sábado, 18 de setembro de 2010
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Hoje estou apocalíptico
Enquanto assinava alguns documentos, conversava com uma colega sobre a gravidez de uma outra e fiquei sabendo que era "mais um menino", como a maioria dos nascimentos de que ficamos sabendo nos últimos tempos. O comentário de que estavam nascendo só meninos me trouxe à mente uma idéia estranha e pensei alto: "será que vai haver uma guerra?" Não me peça para explicar de onde tirei essa associação catastrófica. Eu mesmo descartei o comentário idiota, dizendo "que horror" e retomei meu trabalho. O que tem a ver? Historicamente, as guerras matam mais homens, mas nem por isso nascem mais homens às vésperas delas. Foi um pensamente idiota, mas me perdoo, pois ele tem um motivo.
O mundo de conforto de quem tem conforto está ameaçado. Para quem vive o dia, visando somente chegar vivo ao dia seguinte, como tantos, não faz muita diferença, mas para nós que podemos curtir nossa Internet, nossa TV a cabo, nossos DVDs e games, faz muita. Por mais que as épocas mudem, no fim somos pecinhas no jogo da natureza e da sociedade, o que falar mais alto naquele momento. Não escapa à atenção de ninguém que o mundo está mudando ao nosso redor, e que vamos presenciar, nos próximos anos ou mesmo meses, mudanças climáticas e estruturais nunca vistas, e essas mudanças podem causar conflitos piores que as guerras do século XX. Infelizmente, o que podemos fazer hoje são soluções para um futuro que não será mais como o presente; temos de agir, mas não para evitar as mudanças: elas já ocorreram. O que resta é a acomodação e o equilíbrio. Koyaanisqatsi, em 83, tentava falar poeticamente sobre esse desequilíbrio, mas foram precisos 20 anos e um vice-presidente americano com um Powerpoint melhorado para a questão ambiental ser ouvida como algo que não é só para 'doidos que lutam pelos pandas e pelas baleias'.
Mesmo que parássemos hoje de emitir CFC, o que está presente na atmosfera vai continuar destruindo a camada de ozônio por mais 15 anos, tempo suficiente para destruí-la quase completamente. Mesmo que cessemos hoje de empilhar lixo e emitir poluição, o que já está aí vai poluir grande parte da pouca água que resta e causar doenças por muitos anos. O que não quer dizer que não devamos fazer nada. A Terra está nos mostrando que existe, que precisa de equilíbrio e que vai fazer com que isso aconteça, quer queiramos quer não. Se alguns milhões de formiguinhas humanas desaparecerem no processo, é irrelevante. Acho que essa consciência de que o que fazemos afeta, sim, o planeta e nossa própria sobrevivência pode ser o empurrão que faltava para mudarmos nossa maneira de agir.
O mundo de conforto de quem tem conforto está ameaçado. Para quem vive o dia, visando somente chegar vivo ao dia seguinte, como tantos, não faz muita diferença, mas para nós que podemos curtir nossa Internet, nossa TV a cabo, nossos DVDs e games, faz muita. Por mais que as épocas mudem, no fim somos pecinhas no jogo da natureza e da sociedade, o que falar mais alto naquele momento. Não escapa à atenção de ninguém que o mundo está mudando ao nosso redor, e que vamos presenciar, nos próximos anos ou mesmo meses, mudanças climáticas e estruturais nunca vistas, e essas mudanças podem causar conflitos piores que as guerras do século XX. Infelizmente, o que podemos fazer hoje são soluções para um futuro que não será mais como o presente; temos de agir, mas não para evitar as mudanças: elas já ocorreram. O que resta é a acomodação e o equilíbrio. Koyaanisqatsi, em 83, tentava falar poeticamente sobre esse desequilíbrio, mas foram precisos 20 anos e um vice-presidente americano com um Powerpoint melhorado para a questão ambiental ser ouvida como algo que não é só para 'doidos que lutam pelos pandas e pelas baleias'.
Mesmo que parássemos hoje de emitir CFC, o que está presente na atmosfera vai continuar destruindo a camada de ozônio por mais 15 anos, tempo suficiente para destruí-la quase completamente. Mesmo que cessemos hoje de empilhar lixo e emitir poluição, o que já está aí vai poluir grande parte da pouca água que resta e causar doenças por muitos anos. O que não quer dizer que não devamos fazer nada. A Terra está nos mostrando que existe, que precisa de equilíbrio e que vai fazer com que isso aconteça, quer queiramos quer não. Se alguns milhões de formiguinhas humanas desaparecerem no processo, é irrelevante. Acho que essa consciência de que o que fazemos afeta, sim, o planeta e nossa própria sobrevivência pode ser o empurrão que faltava para mudarmos nossa maneira de agir.
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