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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Deadline: deadly or dead

Quando garoto eu era um notório procrastinador. "Não procrastines o que é de feitura hodierna" era literalmente "colóquio flácido para acalentar bovinos". E tinha consciência disso, pois durante todo o cursinho tive pregado na parede do armário uma tira do Fernando Gonzalez que dizia algo como "o vestibular está aí... É preciso muita coragem... Para ler gibi com esse clima!"
O tempo passou e me tornei um profissional responsável e respeitável, e meu relacionamento com os prazos se tornou mais 'administrado'. Tudo tem prazo, todos são curtos, e sempre há acidentes de percurso, mas para isso criamos planejamentos, processos, métodos e planos de contingência. Mas se alguém me propõe um algo mais a fazer, em cima de todos esses prazos -- principalmente se é algo criativo, que me desafia pessoalmente --, então a diversão começa.

Poucas coisas são mais estimulantes que a luta de vida ou morte contra um prazo. Você estuda o adversário, simula mentalmente suas estratégias e táticas, prepara-se com todas as informações e rumina-as. Então, como um samurai, começa a circular o inimigo, em uma espiral que vai deixando-o cada vez mais próximo. O prazo sabe que a vantagem está com ele, que só precisa esperar: por congestionamentos, por bloqueios mentais, pela queda da conexão. Mas a disciplina e a experiência vencem o desafio e, de um só golpe, a entrega é feita e o deadline jaz derrotado.
Com a comemoração contida e respeitosa de campeão de snooker, você aceita o convite tácito para a próxima contenda.

domingo, 25 de julho de 2010

Amanda's day II


Pais de primeira viagem sempre fazem isso. No primeiro aniversário dos filhos fazem a maior festa, se cansam, e o filho mal registra. Quando o pimpolho é mais velho e vê as fotos, reclama que nunca mais fizeram uma festa daquelas. Pena que não guardaram toda aquela energia para mais tarde...
Lembro-me do primeiro aniversário da Amanda. Mais uma vez passando as férias longe de casa, dessa vez em São Paulo. Lembro-me de meu irmão estendendo uma lona nos fundos, os dedos de engenheiro sangrando da atividade inaudita, e de minha cunhada esmerando-se em milhares de doces enfeitados, tudo feito à mão. Que bonitinhos os dois, tenros vinte e poucos anos, já casadinhos, com cachorro e bebê.

Valeu a pena. A Amanda pode não se lembrar, mas tão fofinha com seu sorriso de olhos semicerrados e seu jeitinho de olhar pendendo a cabeça para o lado, herdado do pai, já era a alma da festa.

domingo, 14 de março de 2010

Escrever só é bom para ler depois

Já li muitos escritores dizendo que adoram escrever, que o processo é o que mais lhes dá prazer e que dificilmente releem seus textos. Entendo isso; há pessoas que gostam de jogos, de resolver enigmas, e escrever às vezes é isso: um grande quebra-cabeças. Vide Anne Sexton, que criava estruturas e regras mais e mais difíceis para a construção de seus poemas; vide Chico Buarque com seus palíndromos insones. Eu, o que eu gosto é ler depois. Não fosse pelo prazer de ler, não sei se me entregaria ao árduo esforço de ordenar palavras elusivas, comandar frases rebeldes e moldar significados. As histórias que escrevi até hoje são as que queria ler e não existiam e as ideias que registro aqui são as que gostaria de ler e de ver com mais frequência. Meu prazer é o texto que funciona, que respira ante meus olhos. O processo de construção é árduo, pois interrompe e adia minha leitura; a revisão é obsessiva na medida em que os erros, os trechos truncados, toldam a visão do que interessa, turvam o texto que quero transparente. Isso não quer dizer que esteja escrevendo para mim mesmo. Escrevo como quem compra para um amigo o presente que gostaria de ganhar. A diferença é que, espertamente, sou o primeiro a desfrutar.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Lembrando Dom Gambini

Era meu primeiro emprego remunerado e 'na área'. Eu e o Carlos tínhamos funções que iam de vender anúncios a escrever matérias, mas era uma revista, oras! O Carlos, que falava inglês, era o repórter oficial e eu, com minha produção gráfica de ESPM, comecei a trabalhar no projeto gráfico (contar laudas, fazer leiaute, moderníssimo!). Gerenciando esses dois grandes futuros profissionais do setor estava Raul Gambini, especialista na indústria gráfica e dono dos dedos mais rápidos que já vi operando uma IBM elétrica. Durante nossos almoços no boteco da esquina (que eu insistia em chamar de 'padaria'), ele apontava para as toalhas de papel, os móbiles anunciando drops, biscoitos ou cerveja, e mostrava que praticamente tudo o que víamos era impresso, obra da indústria gráfica, e falava de quadricromia, registro, pantone, couché, blanquetas, todo um mundo que não desconfiava existir, criando mais um apaixonado pela área -- se não tanto pela gráfica, pela editorial. Aprendi com esse meu primeiro chefe a ser gentil com todo mundo, sem deixar de dizer o que precisa ser dito; a ter amor pelo trabalho, e a buscar sempre o máximo de qualidade em tudo. Mas a maior lição, que ele ensinou como brincadeira, tenho sempre em mente ao escrever e ao pensar qualquer produto de educação: sempre pense em seu leitor/ouvinte/espectador/aprendiz. Para o 'foca' sentado à sua frente, dizia: "você tem que escrever para que qualquer burro entenda..." E, com um sorriso maroto, emendava: "Entendeu?"