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domingo, 18 de abril de 2010

Unindo os pontos

Milena sempre achou que uma antiga colega de trabalho fosse meio 'loki', pois ela contava, comovida, como Deus agia na vida dela e permitia ao Marido cego enxergar o sorriso da neta. É isso mesmo, o marido perdera a visão devido a um estágio avançado de diabetes, mas na sua eterna noite sempre comentava como era lindo o sorriso da netinha, e de fato a neta sorria para ele. A esposa, emocionada, via nisso a mão de Jesus, e se sentia abençoada e compensada porque pelo menos isso ele podia enxergar.
Lendo sobre lesões cerebrais em um livro de divulgação científica, comentei com a Milena sobre um estudo que mostrava que é possível que pessoas que ficaram cegas continuem a perceber emoções nos rostos em fotografias. Segundo relatado por Fernando Reinach, é possível que em alguns casos a retina e o nervo óptico funcionem normalmente, mas algo impeça que a imagem seja enviada à consciência, assim caracterizando a cegueira. Ainda assim, parte da informação visual pode ser transmitida para outra parte do cérebro, que processa emoções, permitindo à pessoa 'adivinhar' a emoção expressa em um rosto fotografado. Ao comentar isso com a Milena, ela juntou os pontos: era isso que acontecia com o marido da colega! As informações visuais não chegavam mais à área do cérebro dele que reconhecia as imagens, mas ele reconhecia as emoções. Dada a sua tragédia pessoal, é possível que poucas pessoas a sua volta se mostrassem muito felizes, então fico imaginando o impacto do invisível sorriso da neta na vida desse homem.
O personagem principal da série House se queixa de que Deus sempre leva o crédito pelo que a ciência faz. Não deixa de ser verdade, mas eu jamais mencionaria àquele casal essa explicação científica. A mão de Deus me parece um consolo melhor.