Sou apegado a um dos discos menos brilhantes dos Paralamas, em que o Herbert canta "Hoje já joguei tanta coisa fora... Cartas e fotografias... A casa fica bem melhor assim...". Ao fazer a separação pós-mudança do que fica ou não fica, encontrei as cartas e fotografias de um amigo muito querido, de quem me afastei, ou nos afastamos mutuamente... Em vez de jogar fora fotografei-as, tentando dar algo de atemporalidade a sonhos e perspectivas que já não existem.
Fiquei pensando no motivo de termos nos correspondido tanto durante o período em que ele estudava fora, mas depois de sua volta a proximidade não nos fez íntimos. Pelo contrário, fomos compartimentalizando nossas conversas, cada um perseguindo separadamente suas conquistas e guardando pequenas mágoas e decepções, que acabaram por se acumular.
Lembro-me de ter lhe enviado uma fita com minha seleção (até hoje) favorita da Nina Simone, e de ele me devolver a letra transcrita, como que adivinhando que precisava do bom ouvido dele para o inglês para dizer: "don't let me be misunderstood'.
É que sem explicar, sem falar, o entendimento não vem, e até me surpreendo por termos continuado amigos por tanto tempo com tanta coisa mal explicada. Ele, sempre aberto, às vezes ofensivo em suas opiniões, mas eu normalmente fechado, exceto pela eventuais tiradas que não me deixavam parecer tão chato... Por muito tempo, acho que ele desconfiava de um relacionamento meu com a namorada, que deixou aqui junto com minha amizade; não desconfiaria se realmente me entendesse, se enxergasse minha retração e minha lealdade. E, se não entendia minha boa intenção, também não percebia que havia mais que amizade em minha proximidade, havia a necessidade de viver por procuração uma vida que parecia muito fora de meu alcance... Talvez por isso nos afastamos quando eu comecei a viver minha própria vida, profissional e amorosa, e a ter meus próprios sucessos. Culpei-o por não estar próximo quando precisei dele, mas também não estive por perto quando ele precisou. Hoje culpo-me por julgá-lo pelo que dizia, em vez de aceitá-lo pelo que é.
E assim cartas, que já ninguém mais escreve, me lembram de uma parte da minha vida que será sempre um tesouro, encolhendo a cada ano, soterrado pelo restante dos anos vividos, mas por isso mesmo mais precioso.
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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
Hoje não quero saber de nada...
...porque é aniversário de meu amigo Omar, o cara mais legal do mundo. Gentil, generoso e bem-humorado, ele é a alma da festa, só que não vai ter festa porque resolveu viajar para Berlim, Nice e outros lugares chatos, em vez de ficar aqui bebendo com os amigos! O que posso fazer, são as escolhas que as pessoas fazem...
Meu mais antigo e constante parceiro de botequim, já acompanhamos mais da metade da vida um do outro, e isso em nosso caso é bastante tempo. Conhecemo-nos na faculdade, no grupinho que, reunindo pessoas do 'interior' ou quase, foi apelidado pela ala cool da classe de "cantinho do faraó". Melhor não lembrar o Omar disso, pois dizem que no trote o enrolaram como uma múmia em papel higiênico... Quem manda ir já na segunda? Fui só na quarta e o máximo que tive de fazer foi desfilar sem camisa para as meninas (eu era tímido, não adiantou nada). Mas já nesse dia conversamos e ficamos inseparáveis. Incrível como conseguíamos nos encontrar sempre, em uma época em que não havia celular (nem telefone eu tinha)! Na época tinha um Ponto Chic em frente ao Shopping Ibirapuera, o cardápio era provolone à milanesa e chopp, terminando com um expresso. Com o passar dos anos, o point passou a ser o Café Creme, na Paulista, e o número de chopes diminuiu e aumentou o de cafés, mas a qualidade da conversa se manteve. Se você quiser falar de cinema, música, vinis antigos e até de negócios, o Omar é o cara. E ele não tem meias palavras: se aquele filme do Woody Allen é ruim, ele vai dizer que é ruim, e se você não gostou do Bastardos inglórios ele vai explicar o que você não entendeu, sem fazer você se sentir ignorante. Mas ele também pode discordar de você numa boa, e cada um na sua... Horas e horas voam, conversando com ele.
Agora crescemos, somos homens de negócios, e não conseguimos nos encontrar mais que umas três ou quatro vezes por ano, mas sempre é como se não tivesse passado um dia. O gibi do Sandman tem uma história em que dois personagens se encontram a cada cem anos para conversar, e ao longo dos séculos percebem que são o melhor amigo um do outro. Para os verdadeiros amigos, o tempo não passa. É um amor como o de família, mas sem nenhuma obrigação. Ou, se existe obrigação, é com você mesmo, pois não quer se negar o prazer da companhia de alguém que é especial para você.
Neste dia desejo tudo de bom para meu amigo, e para todos a felicidade de ter uma pessoa especial com quem compartilhar a vida, mesmo que só algumas horas por ano.
Prost!
Meu mais antigo e constante parceiro de botequim, já acompanhamos mais da metade da vida um do outro, e isso em nosso caso é bastante tempo. Conhecemo-nos na faculdade, no grupinho que, reunindo pessoas do 'interior' ou quase, foi apelidado pela ala cool da classe de "cantinho do faraó". Melhor não lembrar o Omar disso, pois dizem que no trote o enrolaram como uma múmia em papel higiênico... Quem manda ir já na segunda? Fui só na quarta e o máximo que tive de fazer foi desfilar sem camisa para as meninas (eu era tímido, não adiantou nada). Mas já nesse dia conversamos e ficamos inseparáveis. Incrível como conseguíamos nos encontrar sempre, em uma época em que não havia celular (nem telefone eu tinha)! Na época tinha um Ponto Chic em frente ao Shopping Ibirapuera, o cardápio era provolone à milanesa e chopp, terminando com um expresso. Com o passar dos anos, o point passou a ser o Café Creme, na Paulista, e o número de chopes diminuiu e aumentou o de cafés, mas a qualidade da conversa se manteve. Se você quiser falar de cinema, música, vinis antigos e até de negócios, o Omar é o cara. E ele não tem meias palavras: se aquele filme do Woody Allen é ruim, ele vai dizer que é ruim, e se você não gostou do Bastardos inglórios ele vai explicar o que você não entendeu, sem fazer você se sentir ignorante. Mas ele também pode discordar de você numa boa, e cada um na sua... Horas e horas voam, conversando com ele.
Agora crescemos, somos homens de negócios, e não conseguimos nos encontrar mais que umas três ou quatro vezes por ano, mas sempre é como se não tivesse passado um dia. O gibi do Sandman tem uma história em que dois personagens se encontram a cada cem anos para conversar, e ao longo dos séculos percebem que são o melhor amigo um do outro. Para os verdadeiros amigos, o tempo não passa. É um amor como o de família, mas sem nenhuma obrigação. Ou, se existe obrigação, é com você mesmo, pois não quer se negar o prazer da companhia de alguém que é especial para você.
Neste dia desejo tudo de bom para meu amigo, e para todos a felicidade de ter uma pessoa especial com quem compartilhar a vida, mesmo que só algumas horas por ano.
Prost!
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